quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Povo estúpido mas sem classe!...

O Povo Americano é eloquentemente analfabeto.
Atrever-me-ia a afirmar que é um povo estúpido mas sem classe!

E andamos nós preocupados com a nossa Educação…
Se não acredita desafio-o a clicar aqui.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007


Homenagem ao Homem que da Lei da Morte se libertou


O cantor Zeca Afonso desapareceu há 20 anos.

A sua vida, a vida do homem e do cantor consubstanciada com a sua luta pela liberdade de expressão transformaram-no num dos ícones de Abril.

Foi um homem simples e humilde e um dos maiores nomes de sempre da música portuguesa que deve ser lembrado todos os dias como um Grande da nossa Cultura recente, um Enorme Português.

A sua importância política marcou de forma indelével a nossa libertação em 25 de Abril, tendo sido ele o autor da célebre canção “Grândola Vila Morena”, uma das senhas da Revolução dos Cravos.

Apesar da importância da sua intervenção política, Zeca Afonso, será sempre recordado pelos mais jovens como um grande cantor, poeta e compositor de mão cheia.

É com muita saudade que recordo o seu papel fundamental na luta contra a ditadura e a liberdade de expressão, antes e pós 25 de Abril, tendo tido a honra de ter assistido ao seu último concerto no Coliseu.

Os seus amigos mais próximos rotulam-no de «simples e humilde» e uma figura ímpar da cultura nacional, sem vaidade com enorme talento e um coração de enorme generosidade e entrega à causa em que sempre acreditou: a LIBERDADE.

Obrigado Zeca, tu continuas entre nós em companhia daquela gesta de portugueses enormes que Camões cantou …“aqueles, que por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”…

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Na Madeira o Carnaval Continua


Achei o artigo do jornal espanhol, "El Mundo" muito interessante e atento. Clique para ler:

"El maestro portugués del insulto"

Onde está o Wally?

Um dia destes um amigo de longa data, que visita regularmente o meu blog, questionava-me: “vou tantas vezes ao teu blog e nunca leio comentários teus à oposição local. Que se passa?”

O meu comentário foi: “é isso mesmo, não se passa… Não se passa, não se vê, não se sente e nada se vislumbra desta oposição ausente… Como queres tu que eu fale de coisas que não existem? Ele concordou comigo, despediu-se e lá foi à sua vida.

À semelhança do que se passa com a liderança nacional, os líderes locais também se ausentaram para parte incerta, não dando conta de si próprios*.

Será algum projecto nacional esta estratégia da invisibilidade laranja?

*Por falar nisso, onde está o Wally?

Carnaval em grande na Madeira


Alberto João, o Sr. da Ilha, confirma a sua demissão


Na Madeira o Circo continua*…

O espectáculo continua e o artista é mesmo tonto e previsível!... “The show must go on”, por isso, o Senhor da Ilha, confirmou, esta tarde, a demissão do cargo que ocupa desde 1978, interrompendo pela primeira vez um mandato em quase três décadas à frente do executivo madeirense. É obra!

Esta “reflectida decisão” obrigará à convocação de eleições regionais antecipadas, às quais se apresenta desde já como candidato para mais um mandato de quatro anos, referindo: "Coloco-me nas mãos do povo, mas ao recandidatar-me à liderança do governo regional demonstro que não fujo, nem abandono, quando as circunstâncias estão insuportavelmente muito mais difíceis". É preciso topete!...

O artista adora (des)governar em abastança subsidiando, com dinheiros públicos, uma panóplia de subservientes, subsídio-dependentes de quem precisa também para dominar, sem oposição a sua quinta, a seu bel-prazer. É tão fácil governar em abastança… Governar em tempo de vacas magras é que é difícil, não é verdade?

É o populismo cínico no seu melhor. Além de nada mudar nas finanças regionais, (a lei é precisamente a mesma e os dinheiros não vão esticar) o cavalheiro vai, seguramente, uma vez mais tomar banho nas suas multidões eleitorais alimentando a seu ego independentista, para que tudo fique na mesma.

O cavalheiro que se queixa de falta de dinheiro, vai obrigar o erário público ao gasto de verbas consideráveis na organização de umas eleições perfeitamente inúteis para que, no final de tudo, nada se altere.

Era bem feito que lhe saíssem as contas furadas…

*Por falar nisso, onde está o Wally?

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Alberto João Jardim anuncia a sua demissão ?

(Vamos lá ver se o homem tem testículos)

Na Madeira o Circo continua*…

Segundo o jornal Sol on-line, Alberto João Jardim teria já informado a direcção nacional do PSD que se vai demitir de Presidente do Governo Regional da Madeira. O jornal apurou junto de fonte social-democrata que a saída será formalizada a meio da próxima semana e o PSD não irá indicar um substituto, forçando o Presidente da República, Cavaco Silva, a convocar eleições antecipadas.

Está também prevista uma reunião na segunda-feira com os sociais-democratas madeirenses que servirá para Jardim informar da sua estratégia política, ou seja, a sua reeleição, para um novo mandato, com maioria reforçada.

Depois da referida reunião, Alberto João Jardim comunicará a sua saída ao País e depois, a meio da próxima semana, formalizará a demissão junto do ministro da República, como refere o Sol on-line.

Que palhaçada! Demitir-se para se candidatar e ganhar de novo? Porquê tudo isto? Era bem feito que lhe saíssem as contas furadas…

*Por falar nisso, onde está o Wally?

domingo, fevereiro 18, 2007

As trapalhadas do PSD na CML de Lisboa

(As eleições intercalares são inevitáveis)

Em conferência de imprensa na quinta-feira à noite, o vice-presidente disse estar de "consciência tranquila" e anunciou que irá manter-se em funções, uma decisão que afirmou ser "pessoal".

Na sequência desta conferência de imprensa, o presidente, assegurou que a direcção nacional do PSD apoiou "inteiramente" a decisão do vice-presidente de se manter em funções, apesar da acusação de peculato pelo pagamento de prémios a administradores da EPUL.

No dia seguinte, sexta-feira, o PSD retirou a confiança política ao vice-presidente. Carmona Rodrigues tinha estado grande parte da tarde reunido com a direcção nacional do PSD para analisar a crise...

No folhetim seguinte o vice-presidente da Câmara de Lisboa, Fontão de Carvalho, foi obrigado a suspender o mandato por três meses, depois de a direcção do PSD lhe ter retirado a confiança política.

Depois disto o Presidente Carmona Rodrigues viu-se obrigado a recuar, por pressão de Marques Mendes* e de Paula Teixeira da Cruz, depois de, ao fim da manhã, ter manifestado confiança política a Fontão de Carvalho, defendendo a posição inicial do vereador de se manter no posto.

Já Zézinha, a tiazoca da coligação, “topou a coisa” em antecipação e “bazou” batendo com o “Portas” atempadamente... É o CDS no seu melhor safam-se sempre porque têm um incomparável sentido de oportunidade!

Depois de tudo isto dá até pena assistir a este folhetim, pois o Prof. Carmona parece ser até uma pessoa honesta, mas parece também estar muito mal acompanhado, et pour cause, não tem condições de continuar pelo que parecem ser inevitáveis eleições intercalares. C´est la vie

* por falar nisso onde está o Wally?

A “Feira” do melhor Queijo do Mundo

À semelhança das anteriores edições, realizou-se uma vez mais a Feira do Queijo da Serra da Estrela, em Seia, que além das provas do melhor queijo do mundo, (cujo actual figurino se vem revelando discutível) incluiu as habituais mostras de produtos regionais: o mel, o artesanato, os vinhos, o gado ovino e os cães da raça Serra da Estrela. O certame foi ainda complementado por um diversificado programa de animação de rua, ranchos folclóricos, bandas filarmónicas e outros grupos musicais locais.

Este ano a Feira do Queijo teve como complemento inovador a terceira edição da ExpoSocial, que decorreu paralelamente, caracterizada por uma Mostra de Serviços de Apoio Social das Instituições Sociais de todo o Concelho e que teve honras de inauguração pelo ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva que tinha já procedido também à inauguração da Feira.

Pode ser, de facto, um primeiro passo na diversificação e renovação do figurino que tem caracterizado a Feira, tornando-a mais participada e apelativa a quem apresenta os produtos e aqueles que nos visitam…




O ridículo de uma condecoração imerecida

E agora Sr. Presidente? Como reagir ao paradoxo da condecoração precipitada, imerecida e pessimamente atribuída, ao Sr. ex-procurador-geral da República, o ridicularizado Souto de Moura?

O jornal “O Público” publicava no passado dia 16 que o inspector Dias André, um dos dois coordenadores da equipa de investigação da PJ para o processo Casa Pia afirmava, no Parlamento, que as disquetes com a facturação detalhada de Paulo Pedroso fornecidas pela PT – conhecidas como "envelope 9" – foram tratadas pelos serviços técnicos da PJ e analisadas pelos investigadores.

Esta informação contraria a prestada na semana passada pelo ex-procurador-geral da República, Souto de Moura, o qual garantia aos deputados que tais disquetes tinham ficado "arrumadas, esquecidas" no Ministério Público. É preciso topete!...

Mais que uma imoralidade, isto é caso de polícia


Vamos aos factos:

o ex-director-geral de exploração e conservação da REFER (Rede Ferroviária Nacional), recebeu em Junho de 2006 uma indemnização de 210 mil euros para sair daquela empresa do Grupo CP (Comboios de Portugal) e dois meses depois, em Outubro, ingressou na RAVE (Rede Ferroviária de Alta Velocidade).

Segundo o «Correio da Manhã», nesta última empresa, detida pela REFER e pertencente também ao Grupo CP, Manuel Lopes Marques trabalha como assessor do conselho de administração, tem um contrato até três anos e um salário mensal de 5.050 euros. Luís Pardal é o presidente de ambas as empresas: REFER e RAVE.

Agora as conclusões:

basta de escandaleira! Se ninguém mais agir no sentido de exigir responsabilidades, urge que o Sr. Primeiro-ministro aja directamente sem o que perderá toda a credibilidade perante o país e os portugueses a quem pede contenção nos salários e parcimónia nos gastos, onde os funcionários públicos são os “bombos da festa”. Ou será que a malta vai ter de refazer um novo 25 de Abril, desta vez, contra esta desavergonhada corrupção?

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Como o jornal El País viu o referendo em Portugal

(13/02/2007)

EDITORIAL

Nueva era en Portugal

“La amplia victoria del (59% contra 40%) en el referéndum sobre el aborto celebrado el domingo en Portugal supone, nueve años después del ajustado triunfo del no en la primera consulta, un histórico paso adelante para el país vecino. Al dar su respaldo a la despenalización del aborto por decisión de la mujer en las primeras 10 semanas de embarazo, Portugal ha dicho no al miedo, la humillación y la persecución judicial de las 20.000 mujeres que cada año toman la decisión de abortar, ya sea clandestinamente o en el extranjero. Portugal ha querido dejar atrás su ley de 1984, una norma de supuestos casi idéntica a la española que jamás pudo ser aplicada racionalmente por la presión social de la Iglesia y la cerrazón médica.

La victoria del está llena de significados políticos. El debate ha movilizado por primera vez a amplios grupos ciudadanos y ha sido ejemplarmente democrático y civilizado. La voz del Portugal laico y moderno se ha elevado sobre el silencio del país atrasado. Aunque el no sigue triunfando en casi todos los tradicionales feudos rurales del norte y en las islas, los dos grandes núcleos urbanos, Lisboa y Oporto (donde ganó el no en el 98), apoyan sin ambages la reforma, con un 71% afirmativo en la capital y una participación próxima al 50% en ambas. En el cinturón de Setúbal, el Alentejo y el más avanzado Algarve, el alcanza mayorías escandalosas.

Es cierto que 1,5 millones de votantes se han opuesto a la despenalización y que la participación del 44% está lejos de la mitad más uno del electorado necesario para aprobar automáticamente la ley. Pero que el referéndum no sea jurídicamente vinculante no significa, como se ha dicho, que más de la mitad de los ciudadanos esté en contra de despenalizar el aborto. Y tampoco que la consulta haya quedado desvirtuada. Muchas semanas antes, el primer ministro socialista, José Sócrates, y la mayoría de los partidos habían dejado claro que respetarían la decisión popular, ganara el no o el sí, aunque la abstención superara el 50%.

Excepto el ultraderechista CDS/PP y la Iglesia católica, las demás fuerzas políticas y sociales han reaccionado ya en el sentido de que la nueva ley se hará en el Parlamento. Sócrates, pragmático y moderado durante el proceso, ha prometido incorporar algunas peticiones del no y elaborar una reglamentación basada en las mejores legislaciones europeas. Ahora sólo cabe esperar rapidez en la tramitación y la aplicación de la nueva ley que deberá sacar a Portugal de la infame pesadilla del aborto clandestino”.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os Resultados do Referendo no “Day After”

I

As pessoas envolvidas nos movimentos cívicos e as forças políticas que se empenharam pela vitória do “Sim”, no último referendo, foram, e muito bem, comedidos na comemoração dos resultados.

Mais que o sentimento uma retumbante vitória havia a consciência que estávamos finalmente a “acertar o passo” com a Europa civilizada. Para os mais atentos, foi possível tomar nota da emoção mal contida de uma enorme consciência cívica.

Finalmente aderimos, apesar de um atraso de cerca de 30 anos, à comunidade dos países que são para nós próprios, o paradigma de modernidade e da democracia participativa, mas também, o exemplo por nós tomado de desenvolvimento económico e social.

Essa foi decerto a nossa grande comemoração… Esse foi, seguramente, o grande júbilo de todos aqueles que defenderam o “Sim” e que defendem, no futuro, uma sociedade portuguesa do conhecimento verdadeiramente livre, em que todo o cidadão saiba decidir no momento próprio, fazendo as suas opções de forma esclarecida, consciente e democrática…

Sei que vai demorar algum tempo, mas chegaremos lá.


II

As pessoas envolvidas nos movimentos cívicos e as forças políticas que se empenharam pelo “NÃO”, revelaram, publicamente, a sua falta de capacidade de “encaixe” e expressaram, amiudadas vezes, um tom de derrocada. De resto a noite da contagem foi a projecção de tudo o que se passou durante a campanha. Continuaram a acentuar o seu “discurso” à volta de concepções dogmáticas, apostando em tudo aquilo que não estava em causa no âmbito do referendo. Na realidade valores como a vida não estavam, nunca estiveram, em causa neste referendo. E ao centrar o objectivo real do referendo, não na despenalização da mulher, mas numa “liberalização do aborto” dramatizaram o problema e perderam duas vezes.

É o que acontece quando se constroem dramas sobre questões irreais. A futura confrontação com a realidade é mais dolorosa. Daí, os discursos de ressentimento exibidos após o apuramento de resultados. As “exigências” no âmbito social e educativo saíam em catadupa, apesar de nenhuma delas ser pertença do “seu” património histórico, político ou social. Agarraram-se em bandeiras da Esquerda, como tábuas de salvação e exibiram-nas indevidamente.

Foi um incómodo mau perder, tão confrangedor que só visto. Mas o país sabe muito bem identificar quem, sistematicamente, se tem oposto à educação sexual nas escolas, quem coloca entraves ao planeamento familiar e quem exorciza a pílula quem recusa o uso dos preservativos, só para ficarmos por aqui.

III

Agora, no após referendo, as tarefas são outras.

E isso é, neste momento, o mais importante. Centram-se na necessidade de conseguir consensos para, a partir dos resultados de domingo, conseguir uma boa legislação e uma adequada regulamentação, ao encontro do respeito pela mulher que, em condições sempre penosas, decide, em consciência e apoiada, a interromper uma gravidez. Isto é o fundamental.

Por outro lado, ninguém deve tentar apropriar-se desta vitória. Nem partidos, nem movimentos, nem personalidades. Ela pertence ao povo português, no limite às mulheres portuguesas e ninguém tem o direito, e muito menos a Direita, em intrometer-se a dificultar os consensos e explorar eventuais desentendimentos.

Consolidar, adequar e dar forma ao resultado do referendo é a exigente tarefa política que se segue. Para isso basta inteligência, vontade e coesão. Por isso, sem perder, sem deixar desvalorizar, ou permitir a perversão, a Assembleia da República deverá agora trabalhar neste enquadramento de forma sóbria, sem pressas e evitar protagonismos bacocos dando, no essencial, as respostas adequadas, ao conteúdo cívico, inerente de resultados tão esclarecedores.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

“SIM”


Como já antecipadamente se previa, o “SIM” ganhou.

Em primeiro lugar foi a vitória das mulheres, que se libertaram da clandestinidade e dos riscos que lhe estavam associados: perigo de vida, sequelas irreversíveis, devassa da intimidade, perseguições judiciais e humilhações cruéis. Ganharam, ainda, todos aqueles que defendem uma maternidade consciente e desejada, sem estigmas nem medos.

Esta é uma vitória civilizacional que coloca a legislação portuguesa a par da dos países europeus, EUA e Canadá, abandonando a companhia pouco recomendável da Polónia, Irlanda e Malta.

Portugal, republicano e laico deixou para trás o país arcaico, dando um irreversível e definitivo um salto para a Modernidade. Ao mesmo tempo parece ter sido derrubada a última bandeira da Direita e Extrema-direita Portuguesa.

Já se sabia que a extrema-direita estava pelo “Não” mesmo antes da campanha começar e a comprová-lo verificou-se a existência de uma manifestação em Madrid em que cerca de 80 pessoas se reuniram num protesto a favor do "Não" em frente à embaixada portuguesa promovido por dois partidos, um português e um espanhol, de extrema-direita… Na altura, o líder do partido de extrema-direita, Alternativa Portugal, dizia que o seu partido "se colocava do lado da vida e contra a cultura da morte", nascendo "dentro das forças patrióticas e nacionais" e em "defesa da integridade nacional", manifestando-se confiante na vitória do "Não".

Agora com este resultado, finalmente, confirma-se que a Direita parece ter ficado definitivamente órfã de causas que lhe permita manifestar-se ruidosamente.

Finalmente…

sábado, fevereiro 10, 2007

Alvíssaras



Por onde andará o "grande" líder Marques Mendes?

Impressionante! Em pouquíssimo tempo é a terceira vez que volta a desaparecer…

A primeira foi, como se recordam, com a revolta, e bater de porta, da “tia” Zézinha que acabou definitivamente com a já frágil coligação que (des)governa a Câmara Municipal de Lisboa.

A segunda foi quando estalou a bronca da corrupção, (do negócio Braga Parques) na sequência da qual foram dois vereadores da CML constituídos arguidos.

Agora volta a desaparecer com a promulgação do Presidente da República da Lei das Finanças Regionais…

Desapareceu ou fará como a avestruz que sempre que se vê “apertado” enfia a cabeça na areia?

Há momentos determinantes em que é necessário tomar as grandes decisões. São estes momentos que, verdadeiramente, revelam os grandes líderes. Marques Mendes não é, definitivamente, um grande líder e, muito menos, um líder grande.

Citando o nosso imortal poeta, Luís de Camões, é caso para se dizer com toda a propriedade e actualidade: “fraco Rei torna fracas as fortes gentes…

Apostilha: lembra-se ao grande líder, Marques Mendes, que o enterrar a cabeça na areia pode ser um erro estratégico fatal, pois deixa desguarnecidas outras partes do corpo, na retaguarda, que podem levá-lo a perder a guerra da liderança… Topas?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

(Com a devida vénia a Rita Ferro Rodrigues, do seu blog: sorriso-do-bisturi)


Carminho & Sandra


«Carminho senta-se nos bancos almofadados do BMW da mãe. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe conduz o carro e aperta-lhe ternamente a mão. Há muito trânsito na Lapa ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de Espanha.

(Mais a baixo na cidade)

Sandra senta-se no banco cor - de - laranja do autocarro 22 que sai de Alcântara. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe está sentada ao lado dela. Encosta o guarda-chuva aos pés gelados e aperta- lhe ternamente a mão. Há muito trânsito em Alcântara ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de casa de Uma Senhora.

O BMW e o autocarro 22 cruzam - se a subir a Avenida Infante Santo.

Carminho despe-se a tremer sem nunca conseguir estancar o choro. Veste uma bata verde. Deita-se numa marquesa. É atendida por uma médica que lhe entoa palavras doces ao ouvido, enquanto lhe afaga o cabelo. Carminho sente-se a adormecer depois de respirar mais fundo o cheiro que a máscara exala. Chora enquanto dorme.

Sandra não se despe e treme muito sem conseguir estancar o choro. Nervosa, brinca com as tranças que a mãe lhe fez de manhã na tentativa de lhe recuperar a infância. A Senhora chega. A mãe entrega um envelope à Senhora. A Senhora abre-o e resmunga qualquer coisa. É altura de beber um líquido verde de sabor muito ácido. O copo está sujo, pensa Sandra. Sente – se doente e sabe que vai adormecer. Chora enquanto dorme.

Carminho acorda do seu sono induzido. Tem a mãe e a médica ao seu lado. Não sente dores no corpo mas as lágrimas não param de lhe correr cara abaixo. Sai da clínica de rosto destapado. Sabe–lhe bem o ar fresco da manhã. É tempo de regressar a casa. Quando a placa da União Europeia surge na estrada a dizer PORTUGAL, Carminho chora convulsivamente.

Sandra não acorda. E não acorda. E não acorda. A mãe geme baixinho desesperada ao seu lado. Pede à Senhora para chamar uma ambulância. A Senhora não deixa, ponha – se daqui para fora com a miúda, há uma cabine lá em baixo, livre – se de dizer a alguém que eu existo.

A mãe arrasta a Sandra inanimada escada a baixo. Um vizinho cansado, chama o 112 e a polícia.

Sandra acorda no quarto 122 dias depois. As lágrimas cara abaixo. Não poderás ter mais filhos, Sandra, disse–lhe uma médica, emocionada.

Sai do hospital de cara tapada, coberta por um lenço. Não sente o ar fresco da manhã. No bolso junto ao útero magoado, a intimação para se apresentar a um tribunal do seu país: Portugal.

Eu voto sim. Pela Sandra e pela Carminho. Pelas suas mães e avós. Por mim.»

Rita Ferro Rodrigues

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O Desvario do “Não”


José Sócrates foi peremptório ao referir o mais que óbvio: “se o `Não´ ganhar no referendo a lei ficará exactamente como está”.

Pois o pequeno líder do PSD, Marques Mendes, tem a distinta lata de considerar "radical" e "extremista" a posição do primeiro-ministro de recusar alterar a lei sobre a I.V.G. caso o "não" vença no referendo de domingo.

Isto é de doidos!... Os adeptos do NÃO entraram num completo desvario, pois o que afinal está em causa é exactamente o SIM ou o NÃO à alteração da actual lei.

Palavras para quê? Se vencer o Não… Topas?

Promulgação da Lei das Finanças Regionais


Dois dias depois de se saber que Alberto João financiava o seu pasquim com milhões de euros do orçamento público o Presidente Cavaco Silva só podia promulgar a Lei das Finanças Regionais. Cavaco retribui assim de forma justa e sentido de Estado as muitas chantagens que o PSD Madeira exerceu sobre ele quando era primeiro-ministro e precisava dos votos dos deputados regionais para governar. Cá se fazem, cá se pagam e o ancestral Alberto João, uma velha raposa da política portuguesa, devia ter-se precavido para este cenário.

Aguardam-se as reacções do grande líder do PSD, Marques Mendes

O Descaramento Insular


Alberto João Jardim afirmou que: “as verbas atribuídas ao ‘Jornal da Madeira’ servem para manter o pluralismo na comunicação social”, reagindo assim ao relatório do Tribunal de Contas que refere que o Governo Regional da Madeira atribuiu cerca de cinco milhões de euros àquele jornal em 2005. (a propósito: sabes quanto é cinco milhões de euros em moeda antiga?).


Pelo sim, pelo não votarei convictamente `SIM´…


Pelo SIM, pelo NÃO, são duas penosas realidades que atingem de forma especial as mulheres. Os 50% que cabem ao homem, quase não encaixam nem na lei nem na discussão.

Daí a hipocrisia instalada. Sim ou Não, em termos de discussão pública, em Seia e na região, parece ter-se ficado pelo ‘NIM’. Isto é: nem os poderes políticos, autárquicos, partidários, nem a dita sociedade civil, associações, grupos religiosos e afins incluídas, todos parecem estar ‘serenamente’, na ‘paz do senhor’, resguardando-se para o ‘depois’. E depois, seja qual for o resultado, vamos ter por certo as mais ‘interessantes e sublimes ’ provas de fé. É a fé do silêncio, ou o silêncio na fé.

No dia 11 de Fevereiro, o que vai estar em votação é poder ou não poder fazer uma interrupção voluntária de gravidez, assistida, apoiada, sem que a mulher tenha de ir parar à cadeia. É uma alteração ao Código Penal. Uma clarificação. Um acto de honestidade social, cívico e moral, para com todas as mulheres deste país.

‘SIM’ ou ‘NÃO’, à Interrupção Voluntária da Gravidez, é um assunto de importante impacto social e será sempre um assunto especial do foro moral, íntimo de quem penosamente decide e não pode ter Religião, nem Ideário, nem cor político-partidária. E os ‘homens’? Os `homens´, neste como noutros casos, embora presentes, são parte quase irrelevante do problema. Uma atitude tantas vezes imoral, por desresponsabilização própria e por todos legalmente aceite.

Sendo a interrupção da gravidez tão só um problema do Código Penal, é também, e tão só, um problema especial que afecta a mulher. Porque só a mulher é chamada a assumir os encargos, morais, sociais e judiciais.

A discussão, feita por homens, ficará assim, inevitavelmente, inquinada. Pior ainda é transformá-la numa ‘guerra’, trauliteira, político/partidária, quase troglodita, de vida ou de morte, tornando esta problemática, no seu essencial, quase absurda à luz do regime democrático que deveríamos viver em plenitude.

Deste modo, e para que tudo não continue na mesma, pelo sim, pelo não, votarei convictamente `SIM´…

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A resposta à pergunta do referendo é tão simples…


Sim = pró-despenalização

Não = pró-penalização



«A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.

"Concorda com a despenalização..." A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres.

A pergunta do referendo também não é "dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos", matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o "sim ao aborto" e o "não ao aborto".

Numa pergunta que começa com aquele "concorda com a despenalização", os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e antiaborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem "sim" à pergunta são "pró-despenalização". Os que respondem "não" são"pró-penalização" (ou "antidespenalização", o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso. "...»

[...] Dizer que é "despenalização da IVG" significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é "por opção da mulher" significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até "às dez semanas" significa que não é sem qualquer limite, dizer que é "em estabelecimento de saúde" significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde"legalmente autorizado" significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio. Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto. [...]

Rui Tavares in Público

As condecorações do Sr. Presidente

A amplitude das condecorações concedidas pela presidência, sobretudo a Souto Moura, Procurador-Geral da República, durante seis longos anos, de um mandato para esquecer, deveria despertar em todos nós alguma desconfiança oitocentista quanto à qualificação honorífica que tal prodigalidade instititui e nos faz lembrar uma frase muito badalada durante a monarquia liberal:

"Foge, cão, que te fazem barão! Mas para onde, se me fazem visconde?"

Se é o mérito excepcional que deve ser reconhecido por uma condecoração, então estes reconhecimentos não podem ser vistos, a não ser sobre a óptica de um benemerência sem sentido, numa tentativa de distribuir uma, (no mínimo) discutível benesse a quem deveria “por destacados serviços prestados ao País no exercício das funções” em órgãos de soberania e na Administração Pública e que afinal, seguramente, o não fez.

A lista de condecorados incluiu também outra tropa, ávida de condecorações, que premeiem a inutilidade como uma grande façanha a fazer lembrar as antigas cruzadas, agora, pelo ócio. Assim receberam medalhinha o antigo Chefe de Estado Maior-General das Forças Armadas e os ex-Chefes do Estado-Maior da Força Aérea e da Marinha, no máximo por terem sido bem pagos para cumprirem os seus cargos. Não é notável?

Só poderíamos concluir que é bom prover os amigos com uma simpática medalhinha dando curso à função estatal de indicar modelos de vida e cometimento ao bem comum. Topas?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O silêncio interior da maternidade

“ [...]E para as mulheres, que, quase todas, ou abortaram ou pensaram alguma vez em abortar, ou usam métodos conceptivos que à luz estrita do fundamentalismo são abortivos, o aborto de que estamos a falar neste referendo não é uma questão de opinião, argumento, razão, política, dogmática, mesmo fé e religião. Também é, mas não só.

É uma questão de si mesmas consigo mesmas, íntima, própria, muitas vezes dolorosa e nalguns casos dramática. Não é matéria sobre que falem, se gabem, argumentem ou esgrimam como glória ou mesmo como testemunho. Não é delas que vem esta estridência, nem é por elas que vêm os absurdos do telemóvel, do pinto, do ovo, do Saddam Hussein, do coraçãozinho. É mais provável que sintam tudo isso mais como insultos do que como argumentos que lhes suscitem a atenção. [...]
É verdade que, como em todas coisas, há irresponsabilidades, há mulheres irresponsáveis nos abortos que fazem, como nos filhos que fazem, mas duvido muito que sejam a regra. A regra é que aborto é sofrimento, físico e psicológico, e é sobre esse sofrimento que vamos votar. [...]

Se percebêssemos esse silêncio interior da maternidade, mesmo quando dilacerada pelo aborto, seríamos menos arrogantes, menos estridentes, menos obscenos nas campanhas”.

José Pacheco Pereira in Abrupto

Ou “Sim” ou “Não”


“Não é possível concordar discordando, nem discordar concordando”


O movimento “Sim” avança com serenidade pré-anunciando resultados de uma vitória antecipada.

Assim é!... Depois assistirmos aos telejornais do dia, a campanha do “Não”, (prevendo antecipadamente a derrota) parece agora mais interessada em arquitectar com a AR, ou com o PS, acordos pré e pós-referendo, do que lutar pela sua causa.

O extremismo do “Não” começa a ficar desesperado, começando também a perceber que o país não tolera a penalização de mulheres que, por circunstâncias de vária ordem, foram empurradas pela vida a abortar, obviamente com o maior dos constrangimentos – ninguém aborta porque capricho.

O Movimento “Não” quer agora retirar a questão da penalização actual do referendo quando é exactamente essa a pergunta que se faz aos portugueses e às portuguesas. Quer esvaziar o referendo propondo entendimentos futuros…

Neste sentido José Sócrates esteve hoje muito bem, numa sessão promovida pelo movimento "SIM", no CCB, cortando a direito nas manobras do movimento "NÃO".
Melhor ainda esteve ao explicitar e reafirmar o conteúdo da pergunta que se coloca aos portugueses e a apelar à sua participação no referendo. José Sócrates foi contundente ao cortar cerce nas ilusões dos defensores do NÃO, que se sentiram na necessidade de prometer que no dia seguinte ao referendo resolveriam - à sua maneira - a questão da despenalização… O primeiro ministro foi peremptório: “se o Não ganhar no referendo a lei ficará exactamente como está”, dizendo ainda que: “Não é possível concordar discordando, nem discordar concordando”.

Ora neste matéria todos nos lembramos da posição hipócrita dos governos PSD/CDS de Barroso e de Santana que sempre recusaram qualquer alteração ou realização de qualquer referendo sobre a IGV, a qual não fazia parte sequer do acordo de governo desses partidos.

Agora é vê-los, esses mesmos, na televisão, travestidos sob a capa de movimentos cívicos, pretendendo esvaziar o referendo do próximo dia 11 que em sede própria se esforçaram, como sabemos, por protelar, mas que não conseguiram impedir a sua realização.

Cada dia que passa é mais claro e mais nítido, para todos, que só o voto "SIM" responde à questão referendária.

Qualquer outra posição ilude o referendo e manterá esses votantes na ilusão de não terem participado - terem passado ao lado de uma oportunidade histórica de mudar.
Na realidade o "NÃO", defende o NADA, ou melhor, que nada mude.

Será que o prof Marcelo acha que os portugueses não conseguem perceber a diferença entre ter fair-play e capacidade de rir sobre si próprio e tentar fazer deles estúpidos?

Os movimentos “Sim" não podem embarcar no jogo dos “Não” desesperados e antecipadamente derrotados.

Deixemos uma certa Igreja que insiste em ser intolerante, inquisitória e medieva, agora representada pelos novos “padrecas” como beato Bagão e o abominável César das Neves a persignarem-se compulsivamente enquanto vociferam raivas incontidas; aguentemos com serenidade os ódios primários do (pouco) Gentil Martins e outras bastonáricas figuras médicas, decrépitas e repressivo-saudosistas; ignoremos ainda a prosa ignóbil e saudosista de quem escreve por essa gente com histerismo incontido dos "Não", de que é exemplo a Laurindinha Alves de mau feitio.

Essa gente “Não” ainda não entendeu que o extremismo e a intolerância nunca foram bons conselheiros.

O "tempo" desta gentinha não é, definitivamente, o nosso tempo...

O nosso tempo é o tempo do saber, do conhecimento, da tolerância, da filantropia; é o tempo da inclusão do próximo, numa perspectiva de igualdade de oportunidade social e, sobretudo, da não discriminação, seja em que sentido for…

Neste sentido bastará a cada um de nós exercer o nosso dever de cidadania contribuindo positivamente para a construção permanente de uma sociedade mais equilibrada, mais justa e pacificada!...

domingo, fevereiro 04, 2007

Uma pergunta directa para uma resposta honesta

Ainda para partilhar convosco, não consegui também resistir à publicação do artigo de Rui Tavares, publicado hoje, no mesmo jornal O Público


”A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar. "Concorda com a despenalização..." A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é "dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos", matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o "sim ao aborto" e o "não ao aborto".

Numa pergunta que começa com aquele "concorda com a despenalização", os dois votos possíveis não se dividem em pró-aborto e antiaborto, e muito menos pró-escolha e pró-vida. Os que respondem "sim" à pergunta são "pró-despenalização". Os que respondem "não" são "pró-penalização" (ou "antidespenalização", o que é forçosamente ser a favor da penalização). Tudo o mais é responder com alhos a uma pergunta sobre bugalhos, e qualquer chefe de redacção deveria saber isso. "... da interrupção voluntária da gravidez...". Até agora sabemos que a pergunta é sobre despenalizar, mas ainda não falámos de quê. Há quem tenha problemas com a expressão "interrupção voluntária da gravidez" por considerá-la um eufemismo, mas acontece que é a fórmula correcta para designar um aborto não-natural, não-espontâneo.

Mesmo assim, isto não atrapalha o debate: toda a gente parte do princípio de que IVG é aquilo que, em linguagem corrente, genérica e imprecisa, chamamos "aborto". Os problemas surgem quando nos aproximamos da segunda parte da pergunta. "... se realizada, por opção da mulher". No mundo real, o que quer dizer esta parte da pergunta? Quer dizer que a concordância com a despenalização da IVG deve ser dada (apenas e só) no pressuposto de que ela seria realizada por opção da mulher. Basicamente, significa que se uma mulher for forçada a abortar por uma terceira pessoa, esse aborto é crime e essa tal terceira pessoa será punida. Quer dizer que, se fulano apanhar uma mulher grávida, a anestesiar e lhe interromper a gravidez, não poderá eximir-se respondendo que "o aborto foi despenalizado", precisamente porque graças à segunda parte da pergunta o aborto só é despenalizado se for por opção da mulher. No mundo do "não", porém, esta parte da pergunta é a que causa mais engulhos. Percebe-se porquê. "Por opção da mulher"? A mulher, grávida de poucas semanas, a tomar uma decisão? Sozinha? Deve haver aqui qualquer coisa de errado.

Quando se lhes retorque que não poderia ser por opção de outra pessoa, e se lhes pergunta quem queriam então que fosse, a informação não é computada. Algures, de alguma forma, teria de haver alguém mais habilitado para tomar a decisão. O pai? O médico? O Estado? Então e se qualquer deles achasse que a mulher deveria abortar, contra a vontade desta? Pois é. É precisamente por isso que aquele inquietante "por opção da mulher" ali está. "...nas primeiras dez semanas...". Aborto livre, grita o "não"! Aqui está a prova, o aborto é livre até às dez semanas! Ora, meus caros amigos, o limite de dez semanas significa precisamente que o aborto não é livre... Ou o facto de só se poder andar até 50 quilómetros por hora dentro de uma localidade significa "velocidade livre"? Não faz muito sentido, não é verdade?

Enquanto digerem esta pergunta, os adeptos do "não" mudam de estratégia. Então o que acontece às 11 semanas? E o que acontece, meus amigos, quando se anda em excesso de velocidade? É-se penalizado, e a penalização vai-se agravando quanto maior for o excesso de velocidade. Isso quer dizer que, nos pressupostos da pergunta, o aborto não é livre. Não era esse o problema? "... em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" Esta parte final é tão clara que vou poupar palavras. Um "estabelecimento de saúde" quer dizer que não é um estabelecimento desportivo, e "legalmente autorizado" quer dizer que não é ilegal, ou que não é legalmente desautorizado, se tal coisa existisse.

Mas vale a pena notar o que "legalmente autorizado" não quer dizer. Não quer obrigatoriamente dizer do Estado, mas também não quer dizer privado, particular, ou o que seja. Quer dizer apenas que é num estabelecimento de saúde conforme com os procedimentos legais e que foi expressamente autorizado para a operação em causa. Não há melhor barómetro da má-fé neste debate do que dizer que estamos em face de duas perguntas diferentes, ou até duas perguntas de sinal contrário (uma legítima, a outra capciosa), tentando fazer passar a ideia de que a "segunda pergunta" de alguma forma perverte a primeira, rompendo com ela. Não há aqui primeira nem segunda pergunta: há apenas uma pergunta, que se refere a determinadas condições, condições essas que qualificam e restringem o âmbito da questão. Dizer o contrário disto não é só má-fé, é principalmente má-lógica: se a segunda metade da pergunta está contida na primeira, ela não pode ser mais aberta do que a anterior. Como é natural e faz sentido, cada passo da pergunta a fecha um pouco.

Dizer que é "despenalização da IVG" significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é "por opção da mulher" significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até "às dez semanas" significa que não é sem qualquer limite, dizer que é "em estabelecimento de saúde" significa que não é no meio da rua, e dizer que a pergunta se refere a um estabelecimento de saúde "legalmente autorizado" significa que não pode ser no dentista, ou na farmácia, ou no ginásio. Tudo o resto é apenas uma desculpa para não se assumir as responsabilidades do voto. Pessoalmente, não vejo nesta pergunta nada que não me agrade, e vejo muita coisa que me agrada.

É uma pergunta de compromisso, cautelosa, que prevê os limites mais importantes, deixando a definição das políticas (de saúde, de planeamento familiar, judicial, etc.) para os actores e momentos certos. Pode responder-se sim ou não, e eu responderei "sim". Sou pela despenalização, naquelas condições, como outros são pela penalização mesmo naquelas condições. O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta."

Os limites de cada um

Não pude resistir a colocar no blog, para partilhar convosco, um artigo notável subscrito por Helena Matos, hoje, no Público


”Pois aqui estamos no ano de 2007 referendando "a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado". Mas porquê e para quê? Comecemos pelo porquê.

O que terá levado um país que descolonizou (em seis meses note-se!), entrou na CEE e no euro sem que alguma vez se tivesse colocado a hipótese de referendar a vontade dos seus cidadãos a avançar para um referendo sobre uma matéria de consciência? Os portugueses não pediram este referendo. Ele foi-lhes imposto através dum acordo entre um primeiro-ministro, António Guterres, e um líder da oposição, Marcelo Rebelo de Sousa. Ou seja, duas pessoas que são contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas. Com essa decisão não sei se ficaram de bem com as respectivas consciências mas tenho a certeza de que prestaram um mau serviço aos portugueses, que se vingaram abstendo-se, e prestaram também um mau serviço à democracia - note-se que actualmente se começa a dar como facto consumado que se terá de alterar a lei do referendo para contornar a fraca participação dos portugueses nestes escrutínios.

Mas esta opção de Marcelo e Guterres remete para uma outra questão que é muito dos nossos dias e muito mais lata que a polémica em torno da interrupção da gravidez: podem ou não as convicções religiosas ou a pertença a determinadas associações sobrepor-se, em termos de obediência, aos compromissos assumidos na vida pública e política? Todos os dias nos chegam notícias sobre mulheres polícias muçulmanas que, trabalhando na polícia britânica, se recusam a cumprimentar os homens, ou sobre os taxistas muçulmanos que, apesar de trabalharem em aeroportos norte-americanos e não na Arábia Saudita, se recusam a transportar os passageiros que tragam bebidas alcoólicas... Estes são casos em que claramente não só as convicções religiosas se sobrepõem não só às obrigações profissionalmente assumidas como se subestimam completamente os valores do outro e da sociedade em que se vive.

Noutros casos somos confrontados com algo menos obviamente agressivo mas não menos inquietante. Por exemplo, em que medida é que, para alguns políticos portugueses, a pertença à Maçonaria se sobrepôs e sobrepõe à filiação partidária e aos compromissos publicamente assumidos. Por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde português foi apresentado primeiro à Maçonaria do que ao Governo pelo ministro que o concebeu.

No caso do referendo à interrupção voluntária da gravidez estamos claramente perante um caso em que dois líderes políticos deixaram que as suas convicções íntimas se sobrepusessem às suas responsabilidades públicas e políticas. A interrupção voluntária da gravidez estava em discussão na Assembleia da República e o recurso ao referendo não fora sequer equacionado, quer para esta questão quer para outra qualquer.

De facto, a interrupção voluntária da gravidez não devia ser sujeita a referendo. Tal como não o foi o divórcio para o casamento civil ou o acesso livre aos métodos contraceptivos.

Imagine-se que estes dois assuntos tinham sido referendados. Do lado do "não" discutir-se-ia infinitamente o apoio que o Estado devia dar aos casais em crise, as consequências dramáticas do ponto de vista social e familiar dum divórcio, o impacto psicológico dessa ruptura e o arrependimento de muitos daqueles que tomaram tal decisão. A mesma técnica de sofista infatigável se pode aplicar no que respeita ao acesso aos métodos contraceptivos. E contudo estes, num passado não muito longínquo, foram vistos como algo que comprometia os alicerces e os valores mais profundos da nossa sociedade.

Suponha-se que se tinha referendado o acesso livre aos métodos contraceptivos em 1976 em vez de se instituírem as consultas de planeamento familiar?! Dito assim parece despropositado. Não nos imaginamos a viver numa sociedade em que os outros pudessem decidir sobre se podíamos ou não divorciar-nos ou voltar a casar e muito menos nos parece aceitável que fosse o Estado a determinar se podíamos ou não recorrer aos contraceptivos. E contudo vamos votar para decidir se as mulheres podem ou não interromper uma gravidez até às dez semanas.

Quando Vasco Rato, no último Prós & Contras, na RTP1, perguntou "Mas se não for a pedido da mulher deve ser a pedido de quem?" não obteve resposta em nenhuma das vozes que, segundos antes, tanto se indignavam com a possibilidade de a mulher decidir, expressa na pergunta do referendo. Mas, na verdade, se não for a pedido da mulher, uma interrupção de gravidez deve ser a pedido de quem? Aquilo que divide o "sim" do "não" são concepções diferentes do nosso poder sobre a intimidade dos outros e em que medida o Estado lhes deve impor as opções que nós temos como certas. Até onde achamos que o Estado pode controlar não só ou nem tanto as nossas vidas mas sobretudo a dos outros? Esta é a questão que está omnipresente quando votarmos a 11 de Fevereiro. O que está em causa neste referendo não é o que nós fazemos, faríamos ou fizemos quando e se confrontados com o dilema de interromper ou não uma gravidez. O que está em causa é o nosso direito a impor uma gravidez. Pessoalmente não creio que qualquer um de nós tenha ou possa ter esse direito.”