terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os Resultados do Referendo no “Day After”

I

As pessoas envolvidas nos movimentos cívicos e as forças políticas que se empenharam pela vitória do “Sim”, no último referendo, foram, e muito bem, comedidos na comemoração dos resultados.

Mais que o sentimento uma retumbante vitória havia a consciência que estávamos finalmente a “acertar o passo” com a Europa civilizada. Para os mais atentos, foi possível tomar nota da emoção mal contida de uma enorme consciência cívica.

Finalmente aderimos, apesar de um atraso de cerca de 30 anos, à comunidade dos países que são para nós próprios, o paradigma de modernidade e da democracia participativa, mas também, o exemplo por nós tomado de desenvolvimento económico e social.

Essa foi decerto a nossa grande comemoração… Esse foi, seguramente, o grande júbilo de todos aqueles que defenderam o “Sim” e que defendem, no futuro, uma sociedade portuguesa do conhecimento verdadeiramente livre, em que todo o cidadão saiba decidir no momento próprio, fazendo as suas opções de forma esclarecida, consciente e democrática…

Sei que vai demorar algum tempo, mas chegaremos lá.


II

As pessoas envolvidas nos movimentos cívicos e as forças políticas que se empenharam pelo “NÃO”, revelaram, publicamente, a sua falta de capacidade de “encaixe” e expressaram, amiudadas vezes, um tom de derrocada. De resto a noite da contagem foi a projecção de tudo o que se passou durante a campanha. Continuaram a acentuar o seu “discurso” à volta de concepções dogmáticas, apostando em tudo aquilo que não estava em causa no âmbito do referendo. Na realidade valores como a vida não estavam, nunca estiveram, em causa neste referendo. E ao centrar o objectivo real do referendo, não na despenalização da mulher, mas numa “liberalização do aborto” dramatizaram o problema e perderam duas vezes.

É o que acontece quando se constroem dramas sobre questões irreais. A futura confrontação com a realidade é mais dolorosa. Daí, os discursos de ressentimento exibidos após o apuramento de resultados. As “exigências” no âmbito social e educativo saíam em catadupa, apesar de nenhuma delas ser pertença do “seu” património histórico, político ou social. Agarraram-se em bandeiras da Esquerda, como tábuas de salvação e exibiram-nas indevidamente.

Foi um incómodo mau perder, tão confrangedor que só visto. Mas o país sabe muito bem identificar quem, sistematicamente, se tem oposto à educação sexual nas escolas, quem coloca entraves ao planeamento familiar e quem exorciza a pílula quem recusa o uso dos preservativos, só para ficarmos por aqui.

III

Agora, no após referendo, as tarefas são outras.

E isso é, neste momento, o mais importante. Centram-se na necessidade de conseguir consensos para, a partir dos resultados de domingo, conseguir uma boa legislação e uma adequada regulamentação, ao encontro do respeito pela mulher que, em condições sempre penosas, decide, em consciência e apoiada, a interromper uma gravidez. Isto é o fundamental.

Por outro lado, ninguém deve tentar apropriar-se desta vitória. Nem partidos, nem movimentos, nem personalidades. Ela pertence ao povo português, no limite às mulheres portuguesas e ninguém tem o direito, e muito menos a Direita, em intrometer-se a dificultar os consensos e explorar eventuais desentendimentos.

Consolidar, adequar e dar forma ao resultado do referendo é a exigente tarefa política que se segue. Para isso basta inteligência, vontade e coesão. Por isso, sem perder, sem deixar desvalorizar, ou permitir a perversão, a Assembleia da República deverá agora trabalhar neste enquadramento de forma sóbria, sem pressas e evitar protagonismos bacocos dando, no essencial, as respostas adequadas, ao conteúdo cívico, inerente de resultados tão esclarecedores.

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